Quais os riscos da prática de exercícios físicos em ambientes poluídos?

Segundo os padrões da Organização Mundial de Saúde (OMS), São Paulo é a cidade mais poluída do País, seguida pelo Rio de Janeiro. Belo Horizonte disputa o 3º lugar com Porto Alegre. Os poluentes, quanto à forma física, podem ser gasosos ou formados por material particulado sólido ou líquido. Se escolhermos um local poluído para nos exercitar, estaremos submetidos a altos níveis de poluentes que podem prejudicar o nosso rendimento de forma imediata, causando vermelhidão e irritação nos olhos, garganta irritada, sensação de secura no nariz e na boca e cansaço excessivo. Em alguns países, como o Canadá, indica-se consultar as taxas de poluição do ar antes da prática de exercícios físicos ao ar livre. Durante o exercício, exigimos mais do nosso corpo como um todo, músculos, coração e pulmões devem trabalhar mais para executar a prática esportiva desejada. Ou seja, ficamos sobrecarregados! Os músculos precisam de mais oxigênio para poder continuar a atividade e, a partir de um determinado momento, quando o exercício se torna mais intenso, respiramos também pela boca, o que possibilita a entrada de partículas poluentes em nossas vias aéreas, que seriam filtradas pelas narinas se estivéssemos conseguindo respirar pelo nariz. Essas partículas poluentes são absorvidas pelo nosso sistema respiratório e interferem na absorção do oxigênio pelos tecidos e podem provocar inflamação nas vias áreas. Um gás altamente prejudicial, o monóxido de carbono, presente nos escapamentos dos carros, compete com o oxigênio, ocupando o seu espaço e prejudicando as trocas de gases necessárias para execução do exercício. Ou seja, a pessoa que treina em um ambiente com muito monóxido de carbono não consegue oferecer aos seus músculos, o oxigênio necessário para a produção de energia e se cansa mais facilmente. Além disso, pessoas com maior predisposição podem ter crises alérgicas, crises asmáticas e rinite alérgica, principalmente devido às outras substâncias poluentes presentes no ar atmosférico poluído. Pessoas que já possuem problemas respiratórios e alérgicas são naturalmente mais propensas aos efeitos nocivos desses poluentes. Foi por esse motivo que Pequim, durante as Olimpíadas da China, restringiu o funcionamento de fábricas e a circulação de automóveis para que a maratona ocorresse com melhor qualidade do ar.

Outro fator menos conhecido, mas não menos preocupante, é o aumento da incidência de problemas do coração em pessoas expostas à poluição. Estudos publicados na revista The Lancet e pesquisas realizadas na USP mostram que o risco de infarto aumenta duas vezes mais em uma cidade com o ar poluído. Embora a poluição atmosférica, mesmo isoladamente, já aumente o risco de doenças cardiovasculares, quando associada à exposição ao tráfego intenso e o estresse advindo desses agentes estressores, ocorre uma potencialização do risco de infarto do miocárdio, tornando a poluição um relevante problema de saúde pública. Isso se torna ainda mais grave quando pensamos nos efeitos agravantes da poluição em uma população já fragilizada por suas doenças como o diabetes, a hipertensão e naqueles que já tiveram infartos.

Outras situações muito importantes e que estão relacionadas à poluição atmosférica é o aumento da incidência de bronquite crônica, baixo peso ao nascer, abortamento, câncer de pulmão. O risco de ter câncer de pulmão aumenta em torno de 30% e o risco de abortos aumenta em 25%. Aquelas pessoas portadoras de doenças crônicas cardiológicas e pulmonares são mais afetadas pelos danos da poluição, devendo, portanto, evitar os dias de altas temperaturas e a proximidade de até 200 metros de vias mais movimentadas.

Respirar em lugares poluídos enquanto praticamos atividades pode ser comparado a fumar?

A permanência em alguns lugares muito poluídos como áreas de grande concentração de veículos (corredores de tráfego), congestionamentos, locais de menor circulação do ar e fumaça de escapamentos e de fábricas funciona como a inalação da fumaça do cigarro. A pessoa que não fuma, dependendo dos trajetos que ela faz diariamente, pode se estar submetida a riscos semelhantes ao do fumante. Um dado interessante de pesquisadores da USP indica que frequentar alguns lugares específicos de São Paulo, com índices elevados de poluição, corresponde a fumar cerca de 2 cigarros por dia. Motoristas de táxi e ônibus constituem um grupo particularmente submetido a altos níveis de poluição diariamente, causando danos agudos e crônicos a todo o seu organismo.

De acordo com a Fundação Estadual do Meio Ambiente, os poluentes mais frequentes na nossa região são o material particulado (poeira), dióxido de enxofre (SO2), monóxido de carbono (CO), óxidos de nitrogênio (NOx), hidrocarbonetos (HC) e ozônio (O3). Qual o efeito deles no corpo?

Além do monóxido de carbono, existe ainda o chamado material particulado, uma mistura de partículas líquidas e sólidas, de variada composição química, contendo silicatos, metais, carbono, hidrocarbonetos, antígenos animais e vegetais. Quanto menores essas partículas, mais tempo elas podem permanecer no ar, podendo ser transportadas a longas distâncias. Além disso, partículas muito pequenas são mais reativas, podendo causar mais inflamação nas vias aéreas ao de depositarem com maior facilidade e permanecerem retidas nos tecidos pulmonares por períodos mais prolongados. Elas podem provocar além de inflamação e crises respiratórias, como podem agir como substâncias cancerígenas, sobretudo aumentando a incidência de câncer de pulmão. O ozônio, outro gás resultante de reação com outros poluentes, pode estar associado ao aumento da gravidade e da mortalidade por doenças cardiorrespiratórias.

Em grandes centros urbanos é difícil fugir da poluição e atividades físicas são importantes para uma vida saudável. O que as pessoas podem fazer para tentar evitar os riscos? Existe um horário melhor para atividades ao ar livre?

Podemos listar uma série de cuidados que podem ser seguidos para atenuarmos os danos advindos da poluição:

(1) estar atento aos veículos de informação (jornais, televisão, rádio, internet etc) que informam as condições meteorológicas, bem como a qualidade do ar. A chamada inversão térmica aumenta a concentração dos poluentes, já que diminui a dispersão destes;

(2) realizar exercícios em locais fechados, nem sempre, significa evitar a exposição aos poluentes. No caso do monóxido de carbono (CO) existem várias atividades domésticas que aumentam significativamente a sua emissão e prejudicam o rendimento durante o exercício físico;

(3) ao se exercitar em áreas urbanas, procurar lugares que não sejam cercados de prédios e próximos às vias rodoviárias com corredores de tráfego muito intenso. Recomendam-se locais que estejam expostos às correntes de ar consideráveis, como parques e regiões costeiras;

(4) lembrar que há maior emissão de monóxido de carbono e outros poluentes nos horários em que ocorrem maior tráfego de veículos, os chamados horários de rush. Os melhores horários para a prática de exercícios ao ar livre são antes das 07h e após às 20h, horários com menores tráfego de veículos e temperaturas mais amenas;

(5) lutar pela substituição dos combustíveis fósseis, pelo uso mais eficiente da energia e pela evolução tecnológica de produção de energia com a fabricação de automóveis com menor taxa de emissão de poluentes ou mesmo veículos sem emissão de poluentes como os carros e bicicletas elétricas;

(6)rever a política de mobilidade urbana que na maioria das vezes privilegia o transporte individual e não dá os mesmo incentivos ao transporte coletivo, ao uso de bicicleta como meio de transporte e programas que viabilizem o transporte por esses meios como: vestiários na empresas para pessoas que chegam à pé ou de bicicleta, bicicletários para guardar as bicicletas com segurança nos locais de trabalho, meios adequados de transportar a bicicleta em ônibus e metrôs em deslocamentos maiores, dentre muitas outras ações no âmbito político e econômico e educacional.

Além disso, a mobilidade urbana nos grandes centros precisa de uma reformulação significativa. A maioria da população e principalmente aqueles que moram em áreas distantes, acordam muito mais cedo para chegarem ao trabalho. Quem dorme pouco e gasta muito tempo no trânsito acaba prejudicando outros aspectos da vida como o estudo, a educação dos filhos e a prática esportiva e de lazer. Um estudo do American Heart Association diz que o tráfego é tão causador de infarto quanto o cigarro e/ou alimentação inadequada. Embora essa questão de mobilidade urbana passe pela iniciativa e possibilidades do próprio indivíduo, a pessoa precisa ser motivada a migrar do carro para o transporte coletivo, metrô ou bicicleta. É exatamente nesse ponto que entra o poder público! O tráfego é uma questão coletiva e que necessita de legislações e iniciativas educacionais que incentivem o uso de fontes menos poluidoras no transporte urbano.

Dr. Marconi Gomes da Silva – Cardiologista e Médico do Esporte.

Fontes: The Lancet, Volume 377, Issue 9767, 2011, Pages 732-740

Arquivos em Movimento, Rio de Janeiro, v.1, n.1, p.55-63, janeiro/junho 2005