Quais as consequências para uma população que não pratica nenhuma atividade física?

Estamos vendo o “fim” da geração saúde? Muitos educadores físicos e médicos veem com receio esta nova geração que não quer saber de se exercitar, principalmente adolescentes, jovens e mulheres. Comportamento que pode levá-los a morrer primeiro que seus pais. Esta interpretação procede? É isso mesmo?

Quais as consequências para uma população que não pratica nenhuma atividade física? Por favor, pontue não só as consequências para a saúde física, mas também mental e laboral. E, no caso brasileiro especialmente, com uma população cada vez mais idosa e com risco de não ter mais o “luxo” da aposentadoria? Como sobreviver?

Especificamente no seu caso como cardiologista, o quanto sofre o coração sem exercício? Ele é o órgão mais afetado pela falta de atividade física?

Por Marconi Gomes, nosso Cardiologista e Médico do esporte.

Há mais de 60 anos que a medicina e outras áreas relacionadas à saúde vêm demonstrando os benefícios de uma vida fisicamente ativa, como também, de hábitos considerados saudáveis. O aumento na renda, a industrialização e globalização têm ocasionado mudanças econômicas e sociais favoráveis no Brasil. Entretanto, observa-se também um aumento no consumo de alimentos não saudáveis e da inatividade física. A prevalência de homens com sobrepeso no Brasil aumentou de 18,6% em 1974 para 52,5% em 2014. De uma forma geral, o sedentarismo está presente em mais de 30% da população mundial, atingindo valores superiores a 50% em determinados países. A inatividade física aumenta com a idade e é mais frequente em mulheres do que nos homens. Dados de 2014 do Ministério da Saúde mostram que 64% da população brasileira apresenta um comportamento sedentário. Desse percentual, cerca de 15% é totalmente inativa e 49% é insuficientemente ativa. O que isso quer dizer? Que a maioria da população brasileira não se exercita nos padrões aconselhados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e, portanto, apresenta um comportamento sedentário. A OMS preconiza que homens e mulheres, de qualquer grupo sócio-econômico ou étnico devem se exercitar pelo menos 150 minutos por semana, com uma atividade aeróbica de moderada intensidade, como uma caminhada rápida, por exemplo. Ou, então, 75 minutos por semana de exercícios físicos de intensidade vigorosa, como uma corrida de rua. Além disso, exercícios de fortalecimento muscular e de flexibilidade também são recomendados. Quando nos referimos às pessoas inativas, estamos exemplificando situações em que esses indivíduos não praticam absolutamente nenhum minuto sequer de exercícios físicos, enquanto aquelas consideradas insuficientemente ativas até se exercitam, mas em uma quantidade inferior à recomendada. Portanto, elas perfazem menos de 150 minutos por semana de exercícios físicos em intensidade moderada ou fazem apenas exercícios considerados muito leves. Deve-se ficar claro que do ponto de vista de promoção de saúde, mesmo exercícios de baixa intensidade (leves) são capazes de gerar um grande impacto em aspectos relacionados à saúde pública, como melhor controle da pressão arterial, menor níveis de colesterol e glicose, por exemplo.

Apesar de o comportamento sedentário ser majoritário no Brasil, dados de 2014 do Ministério da Saúde mostram que nos últimos 6 anos o número de pessoas que praticam exercícios físicos em seu tempo livre aumentou de 30% para 35%. Além disso, temos observado um crescente aumento na expectativa de vida da população brasileira nos últimos anos, segundo dados do IBGE. Atualmente a expectativa de vida do brasileiro é de 75 anos e 5 meses. Sim, estamos vivendo mais. Mas estamos vivendo melhor?

Então, quando consideramos que cerca de 64% da população brasileira não se exercita na frequência, intensidade e tempo recomendados, podemos também inferir que esse mesmo percentual pode apresentar piores hábitos relacionados à alimentação, maior percentual de gordura, peso corporal mais elevado, tabagismo e outras doenças relacionadas aos hábitos menos saudáveis. Provavelmente estaremos diante de um somatório de fatores que pode, de fato, diminuir a expectativa de vida nessa população, mas mais grave que isso, diminuir a qualidade de vida dessas pessoas, assim como sua capacidade de trabalho. Alguns estudos mostram que pessoas que se exercitam podem ter uma maior expectativa de vida, mas não podemos nos esquecer que essas pessoas fisicamente ativas são justamente aquelas que apresentam os melhores hábitos de vida, os quais também podem ser parte coadjuvante ou mesmo fundamental dessa maior longevidade. Exercitar-se ajuda muito, mas não é tudo!

Nos últimos anos, vem sendo publicado de forma contínua estudos que demonstram que a comportamento sedentário é um importante preditor de doenças cardiovasculares, diabetes do tipo 2, obesidade, alguns tipos de câncer (câncer de intestino e de mama), fraqueza músculo-esquelética, depressão, menor qualidade de vida e maior mortalidade por causas cardiovasculares e por todas as causas. Quando comparamos uma população sedentária com outra um pouco mais ativa, que se exercita mesmo em níveis até menores que os recomendados (somente cerca de 90 minutos por semana), os mais ativos chegam a viver 3 anos a mais. Esse tempo de maior expectativa de vida pode ser ainda maior quando fazemos exercícios físicos nos níveis preconizados ou, idealmente, o dobro do recomendado. A própria OMS sugere que 300 minutos de exercícios físicos em intensidade moderada ou 150 minutos em intensidade vigorosa devem ser a “quantidade” a ser perseguida semanalmente. Mas é importante ressaltar que tão importante ou até mais importante quanto ser fisicamente ativo nas doses recomendadas é estabelecer mudanças favoráveis no estilo de vida como uma alimentação saudável, cessação do tabagismo e a perda de peso. Dessa forma, quando inferimos que a geração de hoje poderá morrer antes que seus pais, devemos considerar vários fatores negativos que atuam conjuntamente e não somente o comportamento sedentário. Estamos em um mundo onde o consumo de produtos industrializados, agrotóxicos e o convívio com a poluição potencializam os danos à saúde. Além disso, observa-se anualmente aumento da mortalidade de jovens e adolescentes por acidentes de carro nas ruas e estradas, o aumento dos casos de AIDS, principalmente no continente africano, e o suicídio.

Os Estados Unidos estão vivenciando uma situação distinta à do Brasil em termos de expectativa de vida. A expectativa de vida dos EUA diminuiu em 2015 pela primeira vez em mais de duas décadas, de acordo com um Centro Nacional para Estatísticas de Saúde. O declínio de 0,1% parece pouco, mas pode ter uma grande significância em longo prazo. A expectativa de vida ao nascer era de 78,8 anos em 2015, em comparação com 78,9 anos em 2014. As taxas de mortalidade nos EUA aumentaram em oito das dez principais causas de morte, incluindo doenças cardíacas, doença respiratória crônica, lesões não intencionais, acidente vascular cerebral, doença de Alzheimer, diabetes, doença renal e suicídio. As taxas de mortalidade foram ainda mais prevalentes nas comunidades americanas mais pobres, onde o tabagismo, obesidade, dietas não saudáveis ​​e o sedentarismo são a regra. Outra causa que pode ter grande responsabilidade nesses dados negativos provenientes dos Estados Unidos refere-se à pouca atenção dispensada aos cuidados em saúde primária. Ou seja, não vem sendo dada a importância necessária à medicina preventiva nos EUA. A própria Diretora-Geral da Organização Mundial da Saúde, Margaret Chan, disse que “A abordagem de cuidados de saúde primários é a maneira mais eficiente e custo-eficaz de organizar um sistema de saúde”. Isso não é nenhuma novidade, mas os governos continuam a não dar a devida atenção à medicina preventiva nos EUA, sendo que no Brasil o que ocorre não é diferente.

Os avanços tecnológicos da medicina podem até garantir um tempo de vida mais prolongado frente a esse cenário adverso, mas apenas os exercícios físicos praticados regularmente, hábitos saudáveis, cidades menos poluídas, investimentos em medicina preventiva e incentivos à formação de médicos e outros profissionais de saúde nos cuidados primários podem garantir uma boa qualidade de vida.

Ao mesmo tempo que vivemos na era do culto ao corpo, na verdade, o Brasil é campeão de cirurgias plásticas e nas academias o consumo de substâncias proibidas é cada vez mais alto. Ou seja, temos outro problema que é querer um corpo bonito sem sacrifício, sem suor, sem atividade física… Como entender? Como fazer as pessoas mudarem de atitude?

Devido aos inúmeros efeitos deletérios causados pelos esteróides anabolizantes, seu uso em atleta profissional, amador e recreacional deve ser totalmente proibido. A utilização desses hormônios pode obviamente melhorar o rendimento esportivo e promover corpos mais musculosos, mas existem razões inquestionáveis de ordem ética e médica que contraindicam o seu uso. Estudos evidenciaram uma piora significativa nas taxas de colesterol dos usuários, maior oleosidade da pele, aumento da acne, aumento da pressão arterial, danos à função do fígado e aumento no risco cardiovascular. Enfim, efeitos colaterais totalmente proibitivos. Essas substâncias são consideradas doping, sendo proibidas pela World Anti-doping Agency (WADA).

Legalmente, nenhum profissional não médico tem o direito de prescrever essa medicação. Mesmo o médico, só poderá prescrever esteróides anabolizantes em situações muito específicas, mas nunca com o objetivo de melhorar o rendimento esportivo. Não existe dose permitida quando o objetivo é obter vantagens competitivas em qualquer modalidade esportiva, muito menos para fins estéticos. O praticante de atividade física que obtém esse medicamento o faz de maneira completamente irregular. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia-SBEM e outras sociedades médicas brasileiras e internacionais reafirmam que a testosterona e derivados não devem ser usados como aumento de massa muscular. Homens que usam dessa prática têm grandes chances de ter efeitos adversos como acne, elevação da pressão, risco de trombose e infertilidade, além de problemas cardíacos e hepático. O uso desse hormônio masculino em mulheres é também muito restrito, tendo em vista os potenciais e significativos efeitos adversos que podem ocorrer. Segundo a SBEM, o envelhecimento masculino pode provocar uma diminuição na produção de testosterona, sobretudo após os 40 anos, mas a maioria não deve apresentar qualquer sintoma, o que não justifica o uso indiscriminado que vem sido demonstrado na população masculina acima de 40 anos e muito menos em um público mais jovem.

Quando os homens acima dos 40 anos relatam sintomas caracterizados pela alteração da função sexual, que são a diminuição da libido, qualidade da ereção, perda de massa muscular, diminuição da força física, aumento da gordura abdominal, alteração do sono e humor, estamos diante do que chamamos de hipogonadismo masculino. O diagnóstico só é feito com sinais e sintomas que sugerem essa doença, mas precisam ter também alterações laboratoriais (testosterona diminuída no exame de sangue). Nesses casos, se não houver contraindicação identificada pelo médico, estaria indicado o tratamento com reposição de testosterona em homens. Essa reposição precisa ser feita com acompanhamento médico especializado. Entretanto, estamos vendo a prescrição indiscriminada desses hormônios para fins estéticos em pacientes sem qualquer queixa descrita acima e com exames laboratoriais normais. Mesmo quando estamos diante de exames laboratoriais alterados, mas sem qualquer relato de sintomas, não estaremos autorizados a prescrever esses medicamentos, e sim, buscar outras causas para esses níveis reduzidos no sangue. A prescrição de remédios sem que ocorram sintomas que justifique tal conduta pode gerar mais malefícios que benefícios. É importante frisar que as doses de reposição para o hipogonadismo são absolutamente diferentes daquelas usadas para fins estéticos (ganho de massa muscular). O homem com essa doença jamais receberá doses tão elevadas como aquelas normalmente usadas de forma completamente inadequada por pessoas que querem aumentar o volume de seus músculos.

E o que pode ser feito para que a pessoa mude de atitude? Certamente a solução dessa questão passa por um tratamento psicológico que muitos desses usuários se negam a fazer justamente por não reconhecerem esse comportamento como anormal. Estamos diante de uma sociedade adoecida, obstinada por falsos conceitos de que a perfeição do corpo passa necessariamente pelo uso de substâncias proibidas. Existe uma forte pressão cultivada também pela mídia de que todas as pessoas precisam ser magras, saradas e muito musculosas para serem aceitas. Isso gera uma corrida desenfreada por esse objetivo independentemente do meio que se utilize para alcançá-lo. Os resultados dessas “celebridades” considerados positivos jogam uma cortina de fumaça que escondem todos os problemas que a Ciência já demonstrou quando se faz uso desse tipo de medicamento para fins estéticos. Muitas pessoas que fazem uso de esteróides anabolizantes podem desenvolver distúrbios do comportamento, do humor e alterar de forma significativa suas relações interpessoais. Muitos estudos demonstram aumento significativo dos quadros de irritabilidade, agressividade, euforia e outros sintomas maniformes durante o uso dessas substâncias, além de sintomas depressivos durante os períodos de abstinência.

Como uma pessoa deixa de ser sedentária? Atividade física é também questão de exemplo? Ou seja, se os pais movimentam, os filhos vão querer seguir o mesmo exemplo? Como na leitura?

Pessoas que estão muito inativas, sedentárias, devem iniciar os treinamentos após uma avaliação médica de um profissional com experiência na área do Exercício e do Esporte. Hoje sabemos que o exercício físico mal orientado pode comprometer a sua manutenção, levando a lesões osteomusculares precoces e a um maior risco de eventos cardiovasculares. Sendo assim, todo recomeço, após um longo período de inatividade, deve ser feito de maneira gradativa, sempre respeitando os limites do corpo.

Recomenda-se que a modalidade escolhida envolva grandes grupos musculares e atividades que chamamos de aeróbica ou de resistência, assim como aquelas que denominadas de anaeróbicas e que demandam o uso de força (musculação ou resistido). Exercícios de sobrecarga (exercícios com sustentação do peso corporal e de resistidos/musculação) são recomendados para preservar a saúde óssea e o vigor muscular. Exercícios aeróbicos são responsáveis pelo maior gasto de calorias e ganhos mais evidentes nos parâmetros cardiovasculares como: maior capacidade de fazer exercícios (resistência) e maior ganho nos parâmetros cardiovasculares e metabólicos (melhor controle da pressão arterial, maior perda de peso, diminuição nos níveis de colesterol e glicose no sangue). Devemos sempre levar em conta a preferência da pessoa por determinada modalidade esportiva, ajudando e orientando o praticante a definir o tipo de exercício que melhor se adapte à sua aptidão, habilidades, capacidade física e seu estado de saúde. Uma pessoa só deixa de ser sedentária se consegue impor disciplina à sua vida. A opção por ser fisicamente ativo passa pela regularidade semanal da prática de exercícios físicos. Sem essa constância, o corpo não é capaz de promover adaptações favoráveis que irão repercutir em uma melhor qualidade de vida e alterações do ponto de vista cardiológico e metabólico que promovam uma melhor expectativa de vida. Existem alguns estudos que demonstram, de fato, uma correlação positiva entre pais fisicamente ativos que favorecem hábitos saudáveis de seus filhos. Provavelmente, crianças que são criadas em ambientes onde se pratica exercícios físicos regularmente e em que as pessoas apresentam hábitos alimentares saudáveis, venham a adquirir esse tipo de comportamento.

Por quê esta geração não quer saber de exercitar? O videogame é o principal vilão? Assim como os aliados Facebook e o WhatsApp? A tecnologia é a culpada? Ao mesmo tempo, no youtube há vídeos de educadores físicos dando aula (montagem de programa de exercícios) de graça ou mesmo postagens de superação de ex-gordinhos, que perderam inúmeros quilos com atitudes simples como sair para correr ou mesmo exercícios funcionais dentro de casa… Como interpretar?

A tecnologia é um recurso ambivalente. Em verdade, tudo se relaciona ao uso que se faz dela. Da mesma maneira que os recursos de mídia como youtube, whatsapp e videogames podem tirar o tempo para a prática de exercícios físicos, esses mesmos recursos podem ser ferramentas valiosas para estimular o início e a manutenção de exercícios físicos. Atualmente existem vários games de realidade aumentada que simulam situações reais que demandam exercícios físicos que chegam a ser de intensidade vigorosa. O youtube apresenta diversos programas com as mais variadas modalidades esportivas que auxiliam e orientam essas práticas. O whatsapp pode conter grupos de pessoas que podem se motivar para corridas de rua, marcar encontros para trekking ou mesmo trocar informações que reafirmam a importância da atividade física.

A questão maior que se levanta é que muitas vezes nesses ambientes virtuais não conseguimos encontrar a real necessidade em sermos fisicamente ativos, afinal, tudo pode ser obtido com as facilidades dos aplicativos, pelo “milagre” da tecla “enter” ou pela habilidade em se manusear um “joystick”. Não parece ser necessário suar muito para atingir certos objetivos nesses tipos de jogos. Se não estivermos inseridos em algum tipo específico de exercício físico como natação, ciclismo, corrida de rua, futebol, tênis etc., nosso interesse em desenvolver nossa aptidão física por meio da tecnologia passa a ser mera curiosidade sem uma finalidade bem definida. Devemos encontrar algo que realmente nos empolgue e que nos faça usar os recursos tecnológicos para aperfeiçoarmos nossas capacidades físicas e aumentar nossa aderência à prática de exercícios físicos.