Mas doutor, tenho diferentes opções para meu tratamento? Qual o melhor?

Trabalhando há alguns anos com ortopedia focada principalmente em traumas e lesões esportivas, atendi muitos pacientes frustrados com tratamentos previamente propostos. Afinal, a maioria das pessoas odeia frases como “você deve parar com seu esporte e ir fazer hidroginástica”. Ou então, pacientes que não tem muita simpatia por medicações receberem como tratamento apenas uma receita de três remédios diferentes.

Paremos para pensar um pouco. Se a própria medicina muda tanto seus conceitos, diagnósticos e tratamentos de tempos em tempos, talvez nós médicos devêssemos ter mais tolerância e maleabilidade em nossas propostas terapêuticas. Nada melhor do que ter dúvidas num campo onde não sabemos de tudo. Isso faz com que abramos nossos olhos para um maior número de possibilidades. E se há várias possibilidades de tratamento de determinada dor ou doença, talvez a escolha daquele a ser utilizado não devesse ser resguardada apenas ao médico.

Entra aí um ponto de vista fundamental: o do paciente. Formas bem diferentes de se tratar a mesma lesão podem ser adequadas a uma ou outra pessoa. Tomemos como exemplo uma lesão bem corriqueira em qualquer consultório ortopédico ou pronto socorro: a entorse de tornozelo. A grande maioria delas são benignas – isto é, evoluem bem. Mas, dentre outros problemas, há uma chance de evoluírem com frouxidão da articulação devido à insuficiência de ligamentos mal cicatrizados. Creio ser papel da equipe profissional de saúde trabalhar para diminuir ao máximo a ocorrência de sequelas em qualquer lesão ou doença. Mas isso não quer dizer que só haja uma opção de tratamento. Pacientes com menor demanda física ou esportiva podem passar por um período de repouso, posteriormente retomando suas atividades gradualmente. Já um atleta competidor que tem um importante evento esportivo se aproximando ou que simplesmente não tolera a ideia de passar semanas ou meses afastado dos treinos, poderá recorrer a uma reabilitação acelerada com direito a fisioterapia diária, uso de órteses funcionais, manutenção da forma física com exercícios em piscina, e por aí vai.

E ainda há mais uma importante variável a ser levada em conta. Pessoas com formações e histórias de vida diferentes podem ter opiniões diferentes sobre a melhor maneira de se tratar determinada lesão. Vamos levar o conceito ao extremo: você acha que um acupunturista chinês de 70 anos de idade vai tratar uma dor lombar aguda da mesma forma que um jovem ortopedista norte americano? E um experiente fisioterapeuta brasileiro de meia idade? Óbvio que não. No entanto, com razoável certeza eu lhe digo que os três devem acertar mais do que errar em seus tratamentos em geral. Contudo, diminuiríamos ainda mais a chance de falha se as opiniões e estratégias desses três profissionais pudessem ser combinadas e direcionadas àquele paciente específico.

Enfim, aquela figura do médico inquestionável por trás da escrivaninha dificilmente tem lugar no mundo de hoje. Não há porque nos privarmos de novas abordagens levando em conta sistemas complexos e antifragilidade, das opiniões de colegas que estudaram e viveram coisas diferentes e, fundamentalmente, do posicionamento de quem mais interessa em qualquer atendimento de saúde: o do próprio paciente.

Dr. Lucas Boechat, nosso ortopedista e traumatologista esportivo.