Hipertensão arterial

Mudança de estilo de vida – Exercícios de baixa e alta intensidade em pacientes hipertensos – Tratamento farmacológico e não farmacológico.
O Conceito

A hipertensão arterial resulta em um maior risco de doença cardiovascular (DCV), acidente vascular cerebral (também chamados de derrames cerebrais), insuficiência cardíaca (coração dilatado) e doença arterial periférica (obstruções das artérias dos membros inferiores). Normalmente, quando medimos a pressão arterial, estabelecemos dois componentes, a pressão arterial sistólica (PAS) e a pressão arterial diastólica (PAD). Muitas vezes, pessoas relatam que a pressão está normal dizendo: “minha pressão é 12 por 8 ou 120 por 80″. Ou seja, a pressão arterial sistólica está em 120mmHg e a pressão arterial diastólica está em 80mmHg. A causa da hipertensão não é conhecida em 90% dos casos (é o que chamamos de hipertensão essencial). Nos outros 5% a 10% dos casos, a hipertensão é secundária a uma ampla variedade de doenças conhecidas, incluindo doença renal crônica, coarctação da aorta, síndrome de Cushing e feocromocitoma.

Segundo nossas diretrizes nacionais, os valores de pressão arterial são considerados normais quando a pressão arterial sistólica está abaixo de 130mmHg e a pressão arterial diastólica está abaixo de 85mmHg. Quem está na zona inicial de perigo? Aquele que apresenta níveis de pressão arterial considerados limítrofes. Ou seja, a pressão arterial sistólica (PAS) está entre 130 a 139mmHg e a pressão arterial diastólica (PAD) está entre 85 a 89mmHg. Esse grupo é também chamado de pré-hipertenso.

O tratamento:

As metas a serem atingidas pelo tratamento anti-hipertensivo devem considerar os níveis de risco de cada pessoa em desenvolver um evento cardiovascular maior, definido por infarto do miocárdio, derrame cerebral, insuficiência cardíaca, doença arterial periférica ou morte por causa cardiovascular, nos próximos 10 anos. Estabelecer o risco cardiovascular de cada paciente é importante para se definir qual será o valor da pressão arterial a ser alcançado. Isso é obtido quando se analisa a idade do paciente, se ele é tabagista ou não, seu nível de glicose no sangue, se o colesterol está elevado, se ele já faz algum tratamento para hipertensão, dentre outros fatores. Essa classificação de risco global é obtida pelo Escore de Framingham e pode classificar as pessoas como de baixo risco, risco moderado e alto risco. Veja a tabela abaixo. O que isso quer dizer? Isso significa que em pessoas consideradas de baixo risco, apenas 10 indivíduos, em cada 100 pessoas, apresentarão um evento cardiovascular maior, nos próximos 10 anos. Ou seja, um risco de 10%. Enquanto pessoas de risco moderado teriam de 10 a 20% de risco e pessoas de alto risco, mais de 20% de chances de apresentar um indesejado evento cardíaco maior.

Calcule seu risco cardiovascular no link abaixo caso você tenha entre 30 a 74 anos. Essa foi a faixa etária estudada para se chegar a esses valores.

https://www.framinghamheartstudy.org/risk-functions/cardiovascular-disease/10-year-risk.php

Indivíduos com risco cardiovascular baixo e moderado e classificados no estágio 1 (PA sistólica e diastólica respectivamente, entre 140 – 149 x 90 – 99 mm Hg) ou estágio 2 (PA sistólica e diastólica, respectivamente, entre 150 – 179 x 100 – 109 mm Hg) poderão ser beneficiados com valores de PA atingidos < 140 x 90 mm Hg. Enquanto que os hipertensos, seja qual for o estágio, mas com risco cardiovascular alto ou com três ou mais fatores de risco associados ou ainda com Diabetes, Síndrome Metabólica ou Lesões em Órgãos-Alvo; bem como aqueles com Doença Renal com perda protéica > 1 g por litro de urina deverão ter metas a serem atingidas iguais a 130 x 80 mm Hg ou mesmo mais baixas.

O risco de ocorrência de uma doença cardiovascular pode duplicar para cada aumento adicional na pressão arterial sistólica de 20 mmHg ou da pressão arterial diastólica de 10 mmHg. Isso se levarmos em conta que as medidas estão sendo aferidas regularmente e não apenas de forma isolada e ocasional, demonstrando uma persistência nesse aumento pressórico. Estudos clínicos demonstram que o tratamento de hipertensão diminui o risco de doenças cardiovasculares, reduzindo a incidência de acidente vascular cerebral em até 40%, o risco de infarto do miocárdio em até 25% e de insuficiência cardíaca em até 64%.

Mudando o estilo de vida: exercícios físicos e reeducação alimentar

As mudanças recomendadas no estilo de vida incluem a adoção de abordagens dietéticas para controlar a pressão arterial (reeducação alimentar), perda de peso (emagrecimento) e a prática de exercícios físicos regulares. A modificação do estilo de vida (MEV) – incluindo atividade física, redução ponderal (se necessária), plano alimentar denominado DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension), isto é, uma dieta rica em frutas, legumes, produtos lácteos pobres em gorduras e com um conteúdo reduzido de gordura saturada e total, redução de sódio dietético (máximo de 10 mmol ou 2,4 g de sódio/dia) e moderação no consumo de álcool continuam sendo parte fundamental da terapia anti-hipertensiva. Alguns pacientes poderão ser tratados apenas com essas mudanças de estilo de vida. Outros necessitarão de medicações associadas a essa mudança de hábitos. Importante que ressaltemos que muitas pessoas acreditam que os níveis pressóricos estarão controlados apenas porque estão usando regularmente as medicações prescritas. Infelizmente isso não é bem assim. Hoje sabemos que o tratamento farmacológico, quando não associado às mudanças do estilo de vida, pode ser menos eficaz ou pode até mesmo não está trazendo benefício algum. Existem vários medicamentos que são efetivos no tratamento da hipertensão. A maioria dos pacientes poderá necessitar de pelo menos duas medicações para alcançar os níveis normais de pressão arterial.

O sedentarismo atualmente é considerado um dos principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares e também está relacionado ao maior risco de aparecimento da hipertensão arterial. Sabe-se que um estilo de vida sedentário em indivíduos com pressão normal eleva seu risco em 20-30% de vir a desenvolver hipertensão arterial.

Homens e mulheres de todas as idades, de qualquer grupo sócio-econômico ou étnico devem se exercitar pelo menos 150 minutos por semana, com uma atividade aeróbia de moderada intensidade, como uma caminhada rápida. Outra opção é fazer 75 minutos semanais de exercícios físicos em intensidade vigorosa. Além disso, exercícios de fortalecimento muscular, assim como aqueles que melhorem a flexibilidade, também são recomendados. Quando falamos em 150 minutos por semana, estamos falando de uma dose relativamente baixa. Embora alguns grupos possam se beneficiar de volumes de treinos até menores que 150 minutos por semana, geralmente informamos que a dose ideal gira em torno de 300 minutos por semana de atividade aeróbia em intensidade moderada.

Deve-se ficar claro que do ponto de vista de promoção de saúde, mesmo exercícios de baixa intensidade (leves) também são capazes de gerar um grande impacto em aspectos relacionados à saúde pública, como melhor controle da pressão arterial, menor níveis de colesterol e glicose, por exemplo. Entretanto, devemos sempre fazer uma distinção entre pessoas que estão fisicamente ativas, daquelas que estão bem condicionadas e, portanto, com uma capacidade de execução de exercícios maior. Pessoas bem condicionadas necessitam de treinos mais longos e mais intensos para obterem essa condição física. É o que chamamos da relação dose-resposta ao exercício físico. Com base nesse conceito, um dado significativo é que risco relativo de morte reduz em pessoas fisicamente ativas, mas pode reduzir ainda mais em pessoas com ótimo condicionamento físico. Por outro lado, exageros podem atrapalhar essa curva de benefícios, mas isso já seria um assunto para outra publicação. Voltando ao nosso tema, alguns estudos mostram também que exercícios aeróbios e também de musculação podem ajudar bastante no controle da pressão arterial. Entretanto, deve-se ter o cuidado de avaliar como estão os índices pressóricos antes de iniciar treinos mais intensos, como corrida de rua, spinning, artes marciais e outros esportes competitivos, assim como, a musculação. Se você já é hipertenso e vem sendo tratado com medicamentos anti-hipertensivos, avaliações periódicas devem ser realizadas, uma vez que as doses poderão ser modificadas à medida que se perde peso e se obtém um melhor condicionamento físico. Esportistas hipertensos ou mesmo atletas hipertensos que se exercitam com regularidade podem até deixar de usar os seus remédios para pressão arterial, uma vez que o exercício físico pode causar uma queda dos níveis pressóricos até 48horas após um determinado estímulo físico. Importante ressaltar que isso varia de pessoa para pessoa e também depende de qual o tipo de exercício físico praticado. Exercícios de moderada a alta intensidade podem ser mais efetivos em reduzir a pressão arterial, mas o esportista deve ser bem avaliado para se submeter a esse tipo de prática com a segurança desejada. Como sabemos, exercício físico é remédio e, como tal, deve ser praticado na dose adequada. A dose correta envolve frequência e intensidade da prática de atividades físicas bem orientadas. Sempre aconselhamos o paciente a não ficar mais de 48horas sem realizar exercícios físicos programados, orientados por um profissional de educação física. Sabemos que a regularidade protege e a prática mal orientada e irregular, sobretudo em alta intensidade, pode acarretar riscos maiores do ponto de vista osteomuscular e cardiovascular. Enfim, se você quer saber se seu coração vai bem e, caso seja hipertenso, deseja fazer exercícios mais intensos com segurança, a nossa dica é: “SPORTIF-SE”.

Dr. Marconi Gomes

Cardiologista e médico do Esporte