Doutor, a cirurgia vai resolver meu problema?

Hoje vamos tratar de um tema tão filosófico quanto técnico dentro da prática médica, mas que confunde a cabeça de muita gente. Trata-se da eficácia dos tratamento médicos, mais especialmente das cirurgias.

Com certa frequência chegam pacientes no consultório ou no pronto-socorro que passam pela porta determinados: “Cansei do meu problema! Agora quero ser operado para melhorar de vez.” Há certa crença de que todos problemas que causam dor podem ser retirados anatomicamente pela mão do cirurgião, como se fossem tumores de contornos bem definidos.

Primeiramente, acontece que todo e qualquer tratamento médico está sujeito a falhas. E com as cirurgias não é diferente. Mesmo quando bem indicadas e impecavelmente executadas, os resultados podem não ser bons. Por exemplo, a indicação de reconstrução cirúrgica do ligamento cruzado anterior (LCA) em um jovem atleta que o rompeu e está com o joelho instável é um consenso entre ortopedistas. No entanto, alguns pacientes evoluem com dor e inchaço persistentes, rigidez articular e até re-ruptura do ligamento no pós-operatório.

Deixando de lado o caso das cirurgias, até mesmo um medicamento simples e de amplo uso como a dipirona está sujeito a complicações. Alguns estudos mostraram haver relação do seu uso com um doença potencialmente fatal chamada aplasia de medula. Ainda assim, médicos continuam prescrevendo a substância aos montes a pacientes com dor ou febre. Como dormimos à noite com tal potencial de culpa sobre nossos ombros???

Acontece que todas as decisões de ação do médico são teoricamente colocadas em uma balança, onde de um lado pesam os potenciais benefícios e de outro os malefícios do tratamento. Algumas vezes, inclusive, é mais prudente e eficaz negligenciar algumas queixas dos pacientes que aprofundar nas investigações diagnósticas e investir no tratamento.

Voltando ao tópico principal deste artigo, muitas vezes não vale a pena operar alguns problemas, ao menos até que todas as outras opções estejam esgotadas. Assim é na maioria das lombalgias, dores laterais do quadril, problemas da patela e outras afecções (veja os artigos sobre cada um destes problemas na categoria Ortopedia). Os resultados do tratamento conservador de alguns desses são equivalentes ou melhores do que os do tratamento cirúrgico. E sem correr os mesmos riscos! Até mesmo em lesões do LCA pode ser avaliada a possibilidade de tratamento não-cirúrgico.

Outro aspecto relevante é de que boa parte dos problemas que chegam ao consultório do ortopedista são causados por desequilíbrios ou sobrecargas, ou seja são mais “funcionais” que “anatômicos”. E se os problemas são funcionais, porque deveríamos tratá-los de maneira anatômica através de uma cirurgia? Estaríamos fadados ao fracasso. Veja o caso das dores lombares. Apesar de a maioria dos pacientes chegar com a ideia pré-concebida de que é necessário fazer uma ressonância para confirmar ou excluir uma hérnia de disco, a imensa maioria das lombalgias é causada por sobrecarga local (desequilíbrio entre capacidade e demanda), inclusive com forte influência de outras regiões do corpo (obesidade abdominal, encurtamento de musculatura posterior da coxa, etc). Portanto, uma eventual cirurgia só pioraria o quadro para estes pacientes.

Para fechar o artigo de hoje, peço que não me entendam mal. Sou cirurgião ortopedista e a hora que me sinto mais realizado profissionalmente é durante o ato cirúrgico. A cirurgia é aliada do médico e do paciente quando bem indicada, sendo algumas vezes a única opção sensata. O objetivo deste texto é alertar pacientes e tentar corrigir um erro conceitual que observo com frequência na rotina de trabalho. Portanto, converse sempre com seu médico sobre os tipos de tratamento possíveis para o seu problema, participando ativamente das decisões.

Abraço e até a próxima!
Dr. Lucas Boechat – médico especialista em ortopedia e traumatologia esportiva.