Dor no quadril do esportista. Uma queixa muito frequente em atletas de diversos esportes.

Dor na região do quadril é uma queixa muito frequente em atletas de diversos esportes e motivo frequente de visita ao ortopedista e demais profissionais da saúde. E o problema não é exclusivamente causado por impacto e saltos, tão recorrentes em certos esportes como corrida e vôlei. Na verdade, observamos que as lesões nessa região estão mais relacionadas a insuficiências e desequilíbrios musculares, malformações ósseas e certos padrões de movimentos repetitivos ou traumáticos.

Anatomicamente, o quadril é a articulação formada pela porção da bacia chamada de acetábulo e pela cabeça do fêmur. No entanto, quando se fala em dor no quadril, também incluímos algumas lesões da pelve, da porção superior do fêmur, da musculatura regional e de vários tendões e bursas, dentre outras estruturas. Em alguns textos incluem-se até mesmo as pubalgias como lesões da região do quadril. Apesar de o acometimento de algumas dessas estruturas também levar a dor e incapacidade para o esporte e atividades cotidiana e serem comuns no consultório ortopédico, neste texto falarei um pouco mais sobre as dores laterais do quadril e o impacto fêmoro-acetabular. Mas antes de me tornar mais específico, acho que vale a pena mencionar a grande frequência de dores musculares que podem ser encontradas nesta região. Isso também é válido para outras regiões do corpo, mas no quadril me admira o quanto boa parte delas passa despercebida caso não seja realizado um exame físico minucioso. E cabe ainda ao ortopedista (e demais profissionais da saúde) avaliar se a dor muscular é primária, ou se surgiu secundariamente como forma de adaptação a outra lesão.

Dor lateral do quadril

Os humanos se diferenciam da maioria dos mamíferos por serem majoritariamente bípedes. Tal postura leva à necessidade de estarmos apoiados em apenas um membro inferior por boa parte do tempo para nos locomovermos, seja caminhando ou correndo. E para locomovermos com mais eficiência (velocidade e economia de energia), desenvolvemos uma potente musculatura na região lateral do quadril para sustentar o peso do corpo e não cair para o lado quando estamos apoiados em um só pé – a chamada musculatura abdutora. A insuficiência deste grupo muscular é a responsável por boa parte das lesões por overuse na região do quadril, em especial das dores laterais. Historicamente os quadros dolorosos na região lateral do quadril foram nomeados, compreendidos e tratados como sendo quase sempre a “bursite trocantérica”. No entanto, com o que sabemos hoje, entendemos que a bursite é responsável por apenas uma pequena parte do problema. Junto a ela, misturam-se outros problemas, como tendinites dos músculos abdutores (glúteos médio e mínimo), quadros doloroso musculares e lesões do trato iliotibial proximal. O conhecimento apropriado dos causadores do problema é um passo importante para saber como tratar apropriadamente cada paciente. Algumas vezes, lançamos mão de exames de imagem, como a radiografia e a ressonância, para confirmar o diagnóstico e excluir outras possibilidades. O tratamento varia caso a caso e costuma incluir correção das fraquezas e desequilíbrios musculares, medidas locais e medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios. Hoje em dia indicamos bem menos as infiltrações do que era feito no passado, pois apesar de uma boa resposta inicial, pode seguir uma piora tardia do quadro, tornando-o mais crônico e difícil de tratar. Mais raro ainda é a indicação de tratamento cirúrgico, contudo, alguns pacientes podem sim necessitá-lo. Acima de tudo, gostaria de enfatizar que a chave do tratamento (e até mesmo da prevenção) está na resolução dos desequilíbrios e insuficiências musculares, mesmo quando se opta por associar outra forma de tratamento.

Impacto Fêmuro-Acetabular

A chamada Síndrome do Impacto Fêmoro-Acetabular é uma patologia descrita tardiamente na história da medicina. Há apenas pouco mais de uma década começamos a diagnosticá-la e tratá-la especificamente. No entanto, seu diagnóstico é bem frequente em atletas com dor no quadril. Basicamente, o problema ocorre porque a cabeça ou o colo (pescoço) do fêmur se choca repetidamente contra a borda acetábulo ou comprime estruturas existentes entre os dois. Este choque, ou impacto, ocorre principalmente durante os movimentos de rotação interna e maior flexão do quadril, frequente em alguns esportes como o hóquei, ciclismo, futebol, ginástica artística, salto ornamental, e até mesmo tênis e golfe. Obviamente, o Impacto não acomete todos os praticantes desses esportes, mas principalmente aqueles que tem pré-disposição devido a alterações na formação óssea do quadril. Alguns indivíduos apresentam a cabeça do fêmur ovalada, e não esférica. Outras pessoas apresentam o acetábulo excessivamente profundo, com um rebordo aumentado ou com o eixo alterado. Algumas pessoas apresentam deformidades em ambos ossos. E uns poucos pacientes com a lesão não apresentam qualquer predisposição anatômica. A Síndrome do Impacto Fêmoro-Acetabular costuma levar a lesões do labrum (um prolongamento de cartilagem fibrosa do acetábulo), da cartilagem articular e dos ossos. Leva a dor durante os movimentos desencadeantes do impacto e de piora progressiva. Alguns pacientes apresentam quadro agudo o bastante para sentir dor mesmo em repouso. Talvez por se tratar de um problema “novo” para a medicina, o tratamento é bem controverso. Algumas pessoas sentem melhora boa o bastante para suas pretensões esportivas apenas com medicação e fisioterapia, diminuindo a inflamação e melhorando a biomecânica do quadril. No entanto, é verdade que boa parte dos pacientes acaba mesmo na mesa de cirurgia. A correção anatômica das lesões e das deformidades pré-disponentes pode ser a única salvação para a melhora da dor e retorno às atividades físicas.

Um abraço e até o próximo artigo!
Dr. Lucas Boechat – médico especialista em ortopedia e traumatologia esportiva