Dor no pé do esportista. Um queixa frequentemente mal compreendida

Dor no pé é uma queixa comum entre os praticantes de esportes e atividades físicas. De início, nos vêm à mente os praticantes de corrida. Quem não conhece (ou não é) um corredor de rua que já sentiu dor nos pés? Contudo, esta queixa é frequentemente observada em praticantes de quase todos esportes. Afinal, quantos esportes você conhece que não dependem de correr ou de saltar?

Durante um “tiro” de corrida, a força de reação que passa do solo para os pés chega a 4 vezes o peso do corpo, sendo ainda maior durante recepções de salto. Caso o esportista seja portador de alguma deformidade, desequilíbrio muscular ou contraturas articulares, esta carga pode aumentar ainda mais ou se concentrar em uma estrutura específica do pé.

Entre os esportistas, treinadores, vendedores de calçados e na imprensa, fala-se muito sobre a necessidade do uso de calçado adequado para cada tipo de pisada e com um bom amortecimento. Mas a verdade é que a ciência tem grande dificuldade de atestar a eficácia destas medidas. Inclusive, alguns estudos nos levam a crer que as pequenas diferenças no formato do pé ou na pisada não tem lá tanta importância assim na prevenção de lesões. Pessoalmente, tento não separar o pé do resto do paciente. Uma pisada excessivamente pronada, por exemplo, pode vir acompanhada de fraqueza de alguns grupos musculares fora do pé, como o tibial posterior e abdutores do quadril. Assim sendo, pode ser melhor tentar reequilibrar o que está fraco, desativado ou encurtado do que “remendar” o problema. Por outro lado, calçados especiais e palmilhas podem sim ter o seu lugar em alguns pacientes, como naqueles com deformidades estáticas flexíveis ou com lesões já estabelecidas e resistentes ao tratamento. (Mais detalhes sobre o assunto, leia em Notícias a matéria: CALÇADOS ESPORTIVOS – Revista SBOT-MG 2014)

Dentre as queixas de dor no pé, temos dois tipos de causas básicas no esportista: as lesões traumáticas e as lesões por sobrecarga (overuse). Nas traumáticas encontram-se as entorses, contusões, fraturas, cortes, rupturas tendíneas, entre outras. A gravidade e o tratamento vão depender do tipo, do local acometido e do grau da lesão. Até mesmo uma lesão como a entorse de tornozelo pode ter prognósticos e tratamentos muito diferentes dependendo de quais ligamentos foram rompidos, se há lesão da cartilagem do tornozelo, se ocorreu lesão concomitante de tendões fibulares, etc.

As lesões causadas pelo overuse costumam ser mais desafiadoras para o paciente e para o ortopedista. Alguns exemplos são as tendinites, fraturas por stress, metatarsalgias, impactos articulares, fasciíte plantar e artrose. Em nenhum dos casos, orientar o paciente a largar o esporte costuma ser um bom conselho. Mas repouso temporário, tratamentos prolongados (por vezes até cirúrgicos), adaptações e uma boa dose de paciência e força de vontade podem ser necessários.

E não devemos nos esquecer de que esportistas são humanos como todos os outros, podendo também ser vítimas de doenças reumáticas, tumores, diabetes, vasculopatias e neuropatias com apresentação e sintomatologia no pé.

Alguns esportes acabam tendo lesões típicas, devido a algum movimento repetitivo ou à possibilidade de traumas agudos com o mesmo mecanismo de lesão. Por exemplo, praticantes de escalada tem maior possibilidade de lesões neurais compressivas; jogadores de futebol apresentam impacto anterior do tornozelo frequentemente; corredores com fasciíte plantar, metatarsalgia e fraturas por stress; jogadores de rugby com “turf toe” e fraturas do tornozelo; jogadores de vôlei e basquete com um grande número de entorses de tornozelo. Assim sendo, o ortopedista deve compreender os gestos e riscos de cada esporte para poder lidar melhor com o problema, tendo mais recursos para diagnosticar, aconselhar e conduzir o caso.

É cada vez mais comum que pacientes compareçam aos consultórios médicos e pronto-atendimentos pedindo ao médico que solicite algum exame específico (a ressonância magnética é a campeã neste quesito). No entanto, devemos lembrar em primeiro lugar que exames não tratam a dor de ninguém. Segundo, o diagnóstico médico é como um quebra-cabeça, que começa a ser montado durante a anamnese e o exame físico. São estes que fornecem o maior número de informações ao médico. Algumas vezes são, sim, necessários exames complementares. A radiografia geralmente é a mais solicitada. Ela é um ótimo exame de triagem (separar o que é grave do que é benigno) e dá um panorama geral de ossos e articulações. A tomografia computadorizada e a ressonância podem complementar o raciocínio para fechar o diagnóstico. O problema é que, às vezes, detalhes demais enganam. Esportistas frequentemente apresentam alterações à ressonância magnética secundárias à carga elevada a que seus corpos são submetidos, sem significar que eles tenham algo que deva ser tratado. Testes de pisada, análise de marcha e corrida e exames de sangue também têm o seu lugar. Contudo, creio que vários destes vêm sendo mais solicitados que o necessário, acabando mais por atrapalhar e fazer com que o esportista gaste dinheiro sem necessidade.

Dr. Lucas Boechat – Ortopedia e Traumatologia Esportiva