Dor no ombro do atleta: arremessadores, nadadores e lutadores.

Volto aos teclados hoje para lhes falar de dor no ombro na prática esportiva. Se da última vez falamos de como são frequentes as dores lombares, a queixa no ombro não fica muito atrás, estando em 2º lugar na frequência do consultório ortopédico. O principal motivo disso são as patologias do infame Manguito Rotador, em sua maioria ocorridas ao longo do envelhecimento natural. No entanto, estamos aqui para falar de lesões associadas ao esporte.

O ombro é uma articulação especialmente complicada. A nossa capacidade de movimentá-lo universalmente e em grande amplitude (pense em todos os movimentos que você é capaz de fazer com o braço) tem o lado ruim de torná-lo uma articulação mais intrinsecamente instável. A natureza nos deu diversos elementos para compensar essa instabilidade (cartilagens, ligamentos, músculos e tendões de características peculiares, etc), mas diante das sobrecargas repetitivas do esporte e dos traumas maiores, um ou vários destes elementos podem falhar. Talvez por esta complexidade, é comum a conversa entre amigos e colegas de esporte de que depois de uma lesão o ombro nunca mais será o mesmo.

O esportista, especialmente o atleta de arremesso (jogador de vôlei, tênis, basquete, beisebol e até pedrinhas na lagoa) coloca o ombro sob grande risco de lesões por microtraumas repetitivos. Entre essas, encontramos as tendinites e rupturas do manguito rotador e do bíceps, bursites, alterações nos padrões normais de movimento de rotação (GIRD), lesões de uma cartilagem chamada de labrum (lesão tipo SLAP), dores musculares ao redor da escápula e compressões de nervo. E dependendo das demandas típicas de cada esporte, encontramos certas lesões mais frequentemente. Atacantes de vôlei, por exemplo, apresentam grande índice de compressão do nervo supraescapular; nadadores de borboleta e estilo livre com tendinites do subescapular; pitchers de beisebol com lesão SLAP e GIRD; levantadores de peso no supino com rupturas de músculo peitoral maior e osteólise lateral da clavícula, etc.

A outra possibilidade são as lesões traumáticas, extremamente frequentes em quedas, lutas e em movimentos aberrantes do braço. Uma das lesões traumáticas mais chamativa e comum nos esportes é a luxação de ombro. Aproveito o momento para orientar ao leitor leigo: nunca puxe o braço do colega machucado para tentar recolocar o ombro no lugar, a não ser que ele desloque o ombro com frequência e você esteja familiarizado com as técnicas. Voltando ao assunto, também encontramos rupturas tendíneas traumáticas, fraturas, luxação da clavícula, entre outras lesões.

O ombro não é das regiões mais fáceis do corpo humano de se examinar. Os testes que deveriam detectar lesões específicas como certas tendinites, frequentemente estão todos positivos em pacientes com o ombro “irritado”. Além disso, ao contrário do joelho, do tornozelo e do punho, e similarmente ao quadril, o ombro é uma articulação profunda. Isso dificulta a palpação das estruturas. Em minha prática de consultório, costumo encontrar em inúmeros pacientes muita dor muscular ao redor da escápula e que acabam sendo mais significativas do que uma lesão específica demonstrada em exame de imagem, como um problema tendíneo do manguito rotador, por exemplo. Ou seja, apesar de um pouco confuso, o bom exame físico do ombro é essencial.

Talvez devido a pouca clareza do exame físico, é frequente que solicitemos exames complementares de imagem, principalmente as radiografias, ultrassom e ressonância magnética. E então, como é de praxe na prática médica, chegamos a um diagnóstico e propomos o tratamento, que vai do uso de medicamentos (orais ou infiltrações), imobilizações, fisioterapia, até a cirurgia.

Portanto, pode duvidar do que seus colegas falam no vestiário do clube. Se você está com aquela dor chata no ombro ou se sofreu um trauma local, saiba que há esperança! O ombro, apesar de complexo, tem solução!

Por Dr. Lucas Boechat – médico especialista em ortopedia e traumatologia esportiva.