Doenças que podem piorar com viagem aérea.

Entre os anos 2000 e 2014, 102,32 milhões de pessoas viajaram de avião no Brasil, distribuídas em viagens domésticas e internacionais.

Apesar de já ter atendido duas paradas cardíacas no ar, problemas de saúde em voos comerciais são relativamente infrequentes. Um trabalho realizado na British Airways no final da década de 1990 demonstrou uma taxa de aproximadamente 1 emergência médica a cada 10.000 passageiros. 70% dessas emergências foram controladas pela tripulação de bordo que recebe treinamento especial. Apenas 30% necessitaram de assistência médica em solo.

Existem alterações no organismo durante a viagem aérea que são relevantes:
– A cabine de qualquer aeronave comercial é pressurizada. A pressão do ar dentro de um avião em voo não é igual a pressão atmosférica ao nível do mar. Quando os aviões atingem sua altura de voo máxima, por volta de 13.000 metros ou 40.000 pés, a pressão atmosférica da cabine é equivalente à de 2500 metros de altura.

Isto faz com que o oxigênio disponível no ar seja menor. É como se, enquanto o avião ganha altitude, nós estivéssemos subindo as cordilheiras. A pressão de oxigênio durante o voo é semelhante ao que temos nessas alturas. Pessoas sadias ao nível do mar apresentam em média 99% das suas hemoglobinas carreando oxigênio pelo sangue (e são as hemoglobinas que pegam o oxigênio vindo dos pulmões e levam para o resto do organismo). Durante o voo, essa taxa cai normalmente para cerca de 94%.

Quando a saturação de oxigênio cai abaixo de 90%, a quantidade de oxigênio distribuída pelos tecidos do corpo começa a ser insuficiente para o bom funcionamento das nossas células. Portanto, se pessoas jovens e sadias chegam a ter 94% de saturação de oxigênio, imaginem o que acontece com idosos ou fumantes inveterados sob uma pressão atmosférica mais baixa. Não é incomum este grupo apresentar algum grau de desconforto e cansaço durante voos longos. Isto ocorre por que a quantidade de oxigênio no sangue torna-se baixa, próxima ou abaixo dos 90%.

Pacientes com doenças cardíacas ou pulmonares, que já apresentam ao nível do mar taxas de saturação de oxigênio menores que 95%, podem não conseguir tolerar essa diminuição de oxigênio. Estes pacientes podem apresentar queda da oxigenação arterial para abaixo dos 90%, taxa insuficiente para o bom funcionamento dos órgãos. Nesse momento podem surgir sintomas de isquemia cardíaca como palpitações, intensa falta de ar e dor no peito (angina).

A baixa pressão atmosférica dentro das cabines provoca uma expansão dos gases de até 30%. Todas as nossas cavidades ocas se expandem. Por isso, sentimos o ouvido entupido durante as viagens. Pessoas com otite ativa, lesões recentes nos tímpanos ou sinusites, podem apresentar rompimento da membrana timpânica durante o voo. Pacientes com lesão recente do ouvido só devem viajar de avião após autorização médica.

A umidade do ar dentro da cabine é de apenas 10-20%, quando o ideal é no mínimo de 40%. Essa baixa umidade, além de facilitar a desidratação, resseca a pele e as vias aéreas, podendo desencadear crises em pacientes com asma ou enfisema/bronquite crônica. Os problemas mais comuns encontrados foram distúrbios gastrintestinais (náuseas, vômitos, diarréia, e dor abdominal), dificuldades respiratórias (bronco-espasmo), dor torácica, síncope neurocardiogênica e crise epiléptica. 75% desses problemas ocorreram no aeroporto, antes da partida ou depois da decida. Pessoas que se submeteram a cirurgias recentes de uma maneira geral, devem consultar seu médico sobre a possibilidade de voar nestas condições.

Impacto das viagens aéreas nas principais patologias Cardiovasculares e Pulmonares

Todo o passageiro portador de uma condição de saúde que possa, potencialmente, descompensar a bordo deve tomar alguns cuidados básicos:

· ter em mãos relatório médico sucinto de sua condição, bem como informações de contato do médico assistente e do seguro saúde;
· manter sempre consigo, na bagagem de mão, a medicação de uso diário, evitando atrasos posológicos no caso de extravio de bagagem;
· informar-se de condições de saúde pública do local de destino, adotando medidas preventivas quando indicado, como vacinações específicas;
· fazer contato com os serviços médicos das empresas aéreas em caso de dúvidas.

Os passageiros cardiopatas estarão, potencialmente, afetados por três fatores principais relacionados à fisiologia da altitude e às particularidades dos voos comerciais: a hipóxia, a aerodilatação e a imobilidade prolongada em posição sentada.

A hipóxia pode ser fator de descompensação em casos limítrofes, agravando as condições clínicas preexistentes.

A aerodilatação pode, pela expansão dos gases abdominais, determinar, nos casos mais importantes, uma restrição de mobilidade diafragmática, contribuindo adicionalmente para a hipóxia. A imobilidade prolongada é certamente um fator de risco para o desenvolvimento de trombose venosa profunda.

Em boa parte das situações, pode ser feita uma avaliação individual que leve em conta o tempo de voo, as condições clínicas e a disponibilidade de recursos. Poucas são as contra indicações cardiovasculares e pulmonares para o voo:

· infarto miocárdico não-complicado em prazo menor do que 2 semanas;
· infarto miocárdico complicado em prazo menor que 6 semanas;
· angina instável;
· insuficiência cardíaca congestiva descompensada;
· hipertensão grave descontrolada;
· cirurgia cardíaca em prazo menor que 10 a 14 dias;
· acidente vascular encefálico em prazo menor que 2 semanas;
· taquiarritmias supraventriculares ou ventriculares sem controle;
· síndrome de Einsenmenger; · doença orovalvar sintomática;
· DPOC exacerbado ou infectado;
· asmático grave em crise;
· pneumotórax recente.

Portanto, qualquer pessoa com problema cardíaco e/ou pulmonar deve consultar um médico antes de fazer uma viagem de avião.

Por Dra. Amanda Pereira – Cardiologista e Médica do Esporte.