Como surgiu minha lesão?

Uma pergunta que pode parecer boba, mas que muitas vezes exige incontáveis palavras para responder é “doutor, porque sinto essa dor?”. Concordo que às vezes a resposta é tão óbvia que a pergunta nunca é feita. É o caso das lesões causadas por um evento traumático específico como uma pancada ou uma entorse. No entanto, os casos mais complexos e desafiantes na ortopedia esportiva costumam ser associados a lesões por overuse. E é nestes últimos que vamos focar o texto desta semana.

No imaginário popular, a prática esportiva regular estaria frequentemente associada ao surgimento de lesões e à dor. No entanto, isso não é necessariamente verdade. No esporte de altíssimo rendimento, tudo bem, as lesões são mesmo muito frequentes. Afinal, o atleta profissional tem que dar o seu máximo nos treinos e na competição se quiser bater seus adversários (que também estão dando o máximo). Mas esse sujeito é uma exceção na multidão de esportistas que vemos nas ruas, clubes, ginásios e trilhas. Na maioria dos casos, podemos encontrar grande associação das lesões por sobrecarga repetitiva (ou overuse) com erros de treinamento, encurtamentos, desequilíbrios musculares, padrões aberrantes de movimento, alterações posturais primárias ou secundárias, etc.

Num treinamento mal conduzido (geralmente desacompanhado de profissional de educação física), o indivíduo empolgado pelos novos hábitos teoricamente saudáveis do esporte escolhido pode passar a exigir de seu corpo muito mais do que ele estaria preparado para realizar. E algum local específico tem que ser o primeiro a se manifestar na forma de dor. Corredores frequentemente se queixam dos joelhos ou pernas, bailarinas dos pés, arremessadores dos ombros e cotovelos, outros tantos dos quadris e da região lombar.

Outras vezes a pessoa pode ter sobrecarga de uma região específica do corpo devido a alguma alteração anatômica ou vícios de movimentos. É muito frequente encontrarmos dor nas regiões lombar e dorsal associada à má postura e encurtamentos musculares (por sua vez, muito ligados aos hábitos da vida moderna). Alguns exemplos: encurtamento da cadeia muscular posterior dos membros inferiores está intimamente ligado às lombalgias e dores patelares; pés planos parecem aumentar a incidência de problemas no tendão de Aquiles e stress medial da tíbia (popularmente chamado de canelite); padrões aberrantes de movimento da escápula ligados a impacto e lesões tendíneas no ombro.

Mas, afinal, o que acontece lá dentro, no local onde dói? – Depende. Tecidos diferentes se comportam de maneiras diferentes diante do overuse. O osso, por exemplo, pode começar se inflamando, seguido da formação de microfraturas que vão se encontrando até levar a uma verdadeira fratura por stress. O local mais frequente disso é na tíbia, o principal osso da perna. Os tendões podem passar também por uma fase inicial inflamatória (peritendinite), seguido por desorganização da estrutura interna do tecido (tendinose) até chegar à ruptura. Vemos muito isso em tendões do ombro, no Aquiles e no tendão patelar de esportistas. Mas, sinceramente, pode aparecer por todos os cantos do corpo.

Creio que o comportamento do tecido muscular seja o mais mal compreendido diante dos microtraumas repetitivos. Examinando bem os pacientes que se queixam de dor em um consultório ortopédico, podemos quase sempre encontrar focos de dor muscular relacionados ou não a um problema de base. Pacientes que tiveram uma entorse grave de tornozelo, por exemplo, frequentemente desenvolvem dor muscular na região lateral da perna de tanto se protegerem inconscientemente de novas entorses. Parece que o comportamento mais frequente do músculo diante de uma sobrecarga crônica seja entrar em espasmo, o que causa dor quando ele é exigido ou até mesmo em repouso. Contudo, um músculo fadigado também está sob maior risco de sofrer uma ruptura durante um esforço mais súbito e vigoroso, o que já é uma lesão bem diferente. As dores de origem muscular refletem bem como a medicina é complexa e deve ser individualizada. São tantos fatores possivelmente relacionados ao problema que se torna impossível dar uma reposta única àquela pergunta inicial: “doutor, como surgiu minha dor?”. Citei alguns poucos motivos, mas poderia ainda citar stress, depressão, falta de sono, lesões neurológicas, ganho secundário, pós treino, pós câimbra, uso de certos medicamentos, etc.

O conhecimento dos fatores causadores da lesão é fundamental para que seja instituído um tratamento eficaz. Especialmente quando se lida com esportistas, utilizar medicamentos costuma ser apenas um paliativo para dor. Se o problema de base não for corrigido, o paciente pode estar fadado a voltar a ter a mesma dor, piorar e muito provavelmente desistir do esporte. E isso é uma grande derrota para o profissional de saúde que vê na atividade física uma das grandes soluções para se evitar uma série de problemas da vida moderna.

Dr. Lucas Boechat – Médico especialista em ortopedia e traumatologia esportiva.